A luz do banheiro continua acesa. No bojo, o sangue vermelho-vinho mistura-se com a água, um corpo moreno permanece inerte no chão de branco revestimento, o chuveiro ainda está ligado e junto da água, se esvai um futuro brilhante.
Há alguns instantes, esse pedaço de menina-mulher, recebera uma ligação muito importante. Alguém a qual ela dedicava um amor incondicional, estava ligando para lhe dar uma notícia de tamanha amargura para a despojada mortal:
_ Oi, meu bem. Estava pensando em você agora mesmo. – dia a ignóbil criatura morena.
_ Querida, sinto muito. Mas não dá mais certo. – revela o estranho-conhecido no outro lado da linha.
_ Não entendi, meu bem. O que você quer dizer com isso?
_ Não dá mais certo! Nós dois... Bem... Precisamos terminar!
_ O quê?! Por quê?! Você não me ama mais?!
_ Eu... Ah! Não dá! Acabou... É isso. Adeus!
__ ... – choro.
_ ...
A raiva e o choro fundem-se em um só! O medo acaricia os negros cabelos. As idéias se misturam com as lembranças. Recordações vêm à tona. A indignação retorna à realidade!
A gaveta... Talvez lá esteja a solução. Um pensamento: “Talvez ele se arrependa! Talvez ele esteja confuso com os seus sentimentos! Eu sei que ele me ama!”. Mas o mal prevalece: “Nada disso! Ele tem outra! Covarde!”.
O revólver preto, que servira sempre como objeto de trabalho (Era uma policial, um das melhores da sua cidade!), brilha convidativo: “Ele não merece viver!”. Reluta... Mas os próximos instantes revelam sua fragilidade feminina.
Vai para o banheiro, tenta esfriar a cabeça com uma ducha fria. As lágrimas permutam-se com a água. “Por que ele fez assim?! Ele dizia que me amava tanto! Disse até que casaríamos ainda esse ano!”. Os planos de um amanhã juntos parece que se dilui em meio às lágrimas e raiva!
O revólver...
O telefonema...
Ele...
O rompimento...
O revólver...
As lembranças...
O revólver...
O banheiro...
O revólver...
As lágrimas...
O tiro...
Como uma pluma caindo delicadamente ao som do vento, desfalece o corpo jovial ainda molhado do banho na cerâmica branca. Dos negros olhos teima em descer calada uma última lágrima, a mais teimosa. Ela vai caindo e fazendo curvas no belo rosto pardo, como que o acariciando uma última vez. Chega aos lábios, os mesmos que um dia fizeram juras de amor a um alguém que não dava a mínima importância ao som transmitido por eles, e ali morre... com a esperança de que este seja um último e longo beijo. A mão esquerda segura uma espécie de papel, quem sabe uma última carta, quem sabe um último recado... Não! Simplesmente a foto daquele a qual dedicará maior parte de sua vida: ele. Na mão direita, adormece o revólver, ainda quente do último disparo.
Quem sabe ela amou demais e ele não! Bem, o certo é que se foi cedo demais...
...
Olhe lá quem vem com um buquê de rosas vermelhas na mão (Ela gostava muito de rosas vermelhas!), deposita-o sobre o branco caixão e revela baixinho, num último suspiro:
“Eu sempre te amei e para sempre vou te amar! Minha menina!”
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